Os números

Do pior cenário ao melhor,
com as contas abertas

Três cenários, cinco anos, onze componentes — e um modelo Excel com pressupostos editáveis para quem quiser discordar com números.

Visão geral

Saldo líquido anual para o Estado, em três cenários

O programa completo — a Categoria I a substituir integralmente o IFICI e os vistos fiscais especiais. No cenário central, break-even logo no Ano 1 e +453 M€/ano no Ano 5.

Milhões de euros por ano. Valores do modelo de impacto (folha «Resumo»).

Saldo líquido anual por cenário (M€)
CenárioAno 1Ano 2Ano 3Ano 4Ano 5
Pessimista−127−153−152−108−66
Central−1+83+185+324+453
Otimista+399+788+1.157+1.517+1.855

Referência de escala: no pior ano do cenário pessimista (−153 M€, Ano 2), o custo equivale a 9 % do que o antigo RNH custou só em 2024 (1.700 M€) — e o RNH beneficiava exclusivamente não residentes. Mesmo o cenário pessimista converge para o equilíbrio, porque as coortes de retenção, regresso e atração acumulam ano após ano.

Até o cenário otimista é conservador

Os três cenários contam apenas os efeitos fiscais diretos e individuais — o IRS, a Segurança Social e o IVA de cada pessoa que adere, fica, volta ou chega. Não contam a transformação da economia, que é precisamente o objetivo do programa: as empresas que estas pessoas criam, os empregos que geram, o investimento do capital que finalmente se acumula cá dentro, o rendimento que sobe nos que trabalham com elas, nem o efeito de arrastamento de um país onde trabalhar mais volta a valer a pena. Se a Categoria I fizer a Portugal uma fração do que o 12,5 % do IRC fez à Irlanda, todos estes números — incluindo o otimista — vão parecer tímidos.

1 · Começar pelo pior

Perda máxima estática, por escalão

Cenário-limite: todos os trabalhadores independentes que poupariam com a Categoria I (12,5 %) mudam; tudo o resto fica igual — zero formalização, zero atração, zero retenção.

Escalão Quem ganha ao mudar? Perda máxima
até 30 k€ (660 mil pessoas) Não — o regime atual, com mínimo de existência e deduções, já é mais barato 0 €
30–50 k€Sim, poupa 1.032 €/ano62 M€
50–80 k€Sim, poupa 5.009 €/ano150 M€
80–120 k€Sim, poupa 12.540 €/ano188 M€
120–200 k€Sim, poupa 26.044 €/ano156 M€
>200 k€Sim, poupa 64.107 €/ano128 M€
Total 113 mil optantes (15 % dos independentes) 685 M€/ano (3,5 % do IRS)

Mesmo neste limite absoluto, estes 113 mil contribuintes pagam hoje ~1.447 M€ de IRS e passariam a pagar 762 M€ — o Estado retém 53 %. Escalões de IRS de 2026 (Lei n.º 73-A/2025), coeficiente de 0,75 do regime simplificado, contribuições de 21,4 % sobre 70 % do rendimento (teto 12×IAS). Distribuição de rendimentos estimada, calibrada para 773 mil trabalhadores por conta própria (INE, 2025).

Do bruto ao líquido: o pior cenário com as compensações automáticas

A mesma perda-limite, líquida dos efeitos que se disparam sozinhos — sem contar com um único novo residente atraído nem um único emigrante retido.

Componente Impacto anual
Perda bruta de coleta dos 113 mil optantes (pagavam 1.526 M€ brutos, passam a pagar 762 M€) −764 M€
Deduções à coleta (saúde, educação, etc.) que os optantes deixam de poder usar — a renúncia faz parte da troca +79 M€
Perda estática líquida −685 M€
Formalização — IRS de 12,5 % sobre rendimento hoje oculto (economia paralela ≈ 35 % do PIB; admite-se que a taxa baixa e fixa traz à superfície 25 % do rendimento não declarado dos optantes, ≈ 951 M€) +119 M€
Formalização — Segurança Social adicional sobre esse mesmo rendimento (21,4 % × 70 %, até ao teto contributivo) +112 M€
Conversão de sociedades unipessoais-envelope para a Categoria I (saldo IRC + dividendos → IRS + SS, ~12,8 mil conversões) +6 M€
Poupança administrativa da AT — sem coeficientes, sem justificação de despesas, sem divergências, quase sem litigância +11 M€
Saldo líquido no pior cenário −437 M€/ano (2,2 % do IRS)

Sensibilidade à formalização: se a taxa fixa só trouxer à superfície 10 % do rendimento oculto, o saldo é −575 M€; se trouxer 50 %, −206 M€. Este quadro exclui deliberadamente os motores de crescimento — atração de novos residentes (nómadas digitais, freelancers UE) e retenção de emigrantes qualificados — e o IVA do consumo associado. Como referência: o antigo RNH custou 1.700 M€ só em 2024, exclusivamente com não residentes. Economia não registada: OBEGEF/Univ. Porto (≈35 % do PIB, máximo histórico).

2 · O programa completo

Um único regime, em vez do IFICI e dos vistos especiais

A Categoria I substitui integralmente os programas fiscais para não residentes — quem viria por essas vias passa a pagar 12,5 % sobre todo o rendimento (em vez de 20 % + isenções sobre rendimento estrangeiro) e a contribuir para a Segurança Social — e somam-se retenção, regresso e atração de talento, com IRS + SS + IVA por pessoa. Cenário central.

Componente Ano 1 Ano 5
Perda estática na base atual (optantes pagam menos)−302 M€−503 M€
Formalização — IRS de 12,5 % sobre rendimento hoje oculto+47 M€+78 M€
Formalização — Segurança Social adicional+37 M€+62 M€
Conversão de sociedades unipessoais-envelope+4 M€+6 M€
Retenção — emigrantes qualificados que deixam de partir (IRS + SS + IVA, coortes acumuladas)+11 M€+54 M€
Regresso de emigrantes atraídos pelo regime (IRS + SS + IVA, coortes acumuladas)+11 M€+54 M€
Atração de novos residentes que não viriam de outra forma (IRS + SS + IVA)+92 M€+340 M€
Substituição do IFICI/vistos — altos rendimentos que viriam de qualquer forma passam a pagar 12,5 % sobre todo o rendimento mundial e a contribuir para a SS (ΔIRS + ΔSS)+60 M€+300 M€
IVA recuperado sobre a poupança devolvida aos optantes (consumo interno)+27 M€+45 M€
Fim dos custos administrativos dos programas para não residentes+8 M€+8 M€
Poupança administrativa da AT (simplicidade da Categoria I)+4 M€+7 M€
Saldo líquido — cenário central −1 M€ +453 M€

O pilar Segurança Social: no cenário central, ano 5, cerca de 350 M€/ano deste programa são contribuições novas para a Segurança Social — formalização (+62 M€), retidos e regressados (+52 M€), atraídos (+120 M€) e ex-IFICI que passam a contribuir cá (+120 M€) — reforçando a sustentabilidade do sistema com contribuintes jovens e de rendimentos altos. Sem dupla contagem: a linha de atração conta apenas quem vem por causa da Categoria I; a de substituição conta quem viria de qualquer forma (4 mil/ano no central, +15.000 €/ano cada em IRS+SS, porque o rendimento estrangeiro deixa de estar isento e passam a descontar em Portugal). O IVA só é contado para pessoas incrementais — os desviados do IFICI já cá consumiriam. RNH existentes mantêm direitos adquiridos.

3 · Ano a ano, componente a componente

Os três cenários por dentro

A mesma estrutura de onze componentes, com os pressupostos de adesão, formalização e atração a variar. Valores em M€/ano; positivo = ganho para o Estado.

O cenário de referência: adesão moderada, formalização de 25 % do rendimento oculto dos optantes, atração comparável a programas europeus equivalentes.

ComponenteAno 1Ano 2Ano 3Ano 4Ano 5
Perda estática na base atual−302−427−503−503−503
Formalização — IRS 12,5 % s/ rendimento hoje não declarado+47+66+78+78+78
Formalização — SS adicional+37+53+62+62+62
Conversão de sociedades unipessoais+4+5+6+6+6
Retenção de emigrantes (coortes)+11+22+33+44+55
Regresso de emigrantes (coortes)+11+22+33+44+55
Atração de novos residentes+92+170+236+293+340
Substituição do IFICI/vistos (ΔIRS + ΔSS)+60+120+180+240+300
IVA sobre a poupança devolvida+27+38+45+45+45
Fim dos custos admin. dos programas p/ não residentes+8+8+8+8+8
Poupança administrativa da AT+4+6+7+7+7
Impacto líquido−1+83+185+324+453

Break-even no Ano 1 (−1 M€ arredonda a zero) e crescimento contínuo a partir daí, à medida que as coortes de retenção, regresso e atração acumulam e a substituição do IFICI atinge o regime cruzeiro.

Metodologia e fontes

Estimativas para debate — abertas e editáveis

Estas estimativas são ilustrativas, construídas para o debate público. Todos os pressupostos estão na folha «Pressupostos» do modelo Excel (células azuis/amarelas editáveis) — quem discordar de um número pode alterá-lo e ver o resultado. Fontes principais, citadas em detalhe no anexo técnico:

  • 773 mil trabalhadores por conta própria — INE, 2025
  • Escalões e taxas de IRS de 2026 — Lei n.º 73-A/2025
  • Regime simplificado (coeficiente 0,75) e contribuições de 21,4 % sobre 70 % do rendimento relevante — Código do IRS e Código dos Regimes Contributivos
  • Economia não registada ≈ 35 % do PIB — OBEGEF / Universidade do Porto
  • Custo do antigo RNH em 2024: 1.700 M€ — despesa fiscal reportada
  • Custo da emigração jovem qualificada ≈ 2 mil M€/ano; 73 % dos jovens até aos 24 anos ponderam emigrar — estudos citados no anexo técnico
  • Regimes comparáveis: forfettario italiano, ryczałt polaco, taxas únicas romena e búlgara, IFICI português

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